terça-feira, 4 de agosto de 2009

Como Tranquilizamos Nossas Crianças


A cada dia aumenta a demanda escolar por alunos menos ativos, mais quietos, mais tranquilos e que não causem maiores distúrbios durante a sua estada na escola. Há algum tempo surgiu um medicamento, cada vez mais utilizado tanto em crianças como em adultos, cuja proposta é proporcionar um aumento da concentração e, com isso, melhorar o rendimento nos estudos. Por um lado, a escola indica que seus alunos com distúrbios de aprendizagem e de comportamento procurem algum tratamento psíquico, chegando hoje a alguns exageros como o diagnóstico ou o rótulo de hiperatividade conferido pela própria escola. Imediatamente, a neurologia lançou mão de um medicamento, cujos efeitos implicam numa melhora dos quadros de impulsividade, hiperatividade e déficit de concentração. Por outro lado, os pais encontram na melhoria da concentração e na consequente tranquilização de seus filhos o ideal da criança enquadrada ao que dela é esperado.
Em meio a todos esses fatos cabe interrogar: hoje, com todas as fontes de informação disponíveis, principalmente a internet e a mídia (rádio, TV, jornais, revistas, etc), o lugar do professor seria ainda o daquele que leva aos alunos conhecimentos antes tão restritos às salas de aula? Hoje, em qualquer idade, desde o momento em que a criança começa a utilizar o computador até o homem de idade mais avançada, pode-se acessar a internet e obter informações de qualquer espécie, o que faz com que o conhecimento se construa de outra maneira. Escutamos isso no dia-a-dia! Afinal, diante de qualquer dúvida: “procura no Google”. Essa seria talvez, senão a frase do século a da primeira década do milênio. Com isso, se em outro tempo, diante das inquietações e questionamentos procurávamos as respostas em alguém que ocupava o lugar de um saber e o encarnava, hoje, encontramos as respostas em um espaço virtual, com informações em tempo real.
Nesse espaço virtual, as relações também começaram a ser tecidas e, em lugar do som da voz do professor que sustentava o saber, em nosso tempo, pode-se ter qualquer informação na tela do computador ou do celular. Não mais é necessário que os alunos escutem o que o mestre tem a dizer para encontrar alguma resposta; não é mais necessário que o sujeito formule uma pergunta acerca de seus questionamentos, enunciando-a e, dessa forma escutando o que diz. Consequentemente, uma vez “não escutando”, o sujeito “não fala”, e o circuito não se completa. A fala, para o filho do homem, não é apenas uma emissão de sons, acrescenta-se a ela a sua pertinência a um discurso, àquele que permite ao sujeito situar-se como desejante.
O que quero destacar parte de um recorte da clínica com crianças e adolescentes e a crescente demanda por uma análise para sujeitos que foram diagnosticados com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) e medicados por alguns anos. Comumente, surgem dos professores e educadores as primeiras queixas e isso porque são eles que, em geral, encontram-se diante de um aluno que “não se interessa por nada”, que “não consegue ficar quieto”, que “não se concentra”; o que, evidentemente, vai, na maioria das vezes, se associar a um baixo desempenho escolar. Certamente, os professores, que passam boa parte do tempo escolar com a criança e o adolescente, esperam, com razão, encontrar em sala de aula alunos. Mas que alunos esperam encontrar?
A palavra aluno deriva do latim alumnus, que significa criança de peito, lactente, menino, aluno, discípulo. Portanto, o aluno é, na acepção da palavra latina, um lactente. Coisa curiosa, pois, à diferença dos animais, o filho do homem é aquele que na lactância recebe muito mais do que o leite, recebe com ele o significante carreado pelas palavras do Outro Materno, do Outro Primordial.
Prematuro em seu nascimento, o bebê humano só conseguirá sobreviver mediante os cuidados de um semelhante que o alimente, o limpe, o embale. Em seu desamparo ele apenas grita, e o seu grito convoca o outro, este que lhe é próximo, a acudi-lo. Nesse movimento em direção ao grito, buscando acudir a criança, o Outro Materno vai dar um nome a esse grito chamando-o choro. A mãe interpretará esse grito como um choro que lhe é dirigido demandando alimento, higiene, aconchego e fazendo com que cada grito de seu rebento seja ouvido como um apelo que a faz se perguntar: “o que ele quer de mim?”. Interrogação que a faz oferecer o que ela pensa poder satisfazer as necessidades de sua criança. Essa oferta vai muito além do alimento, encontrando, no ser humano, o abrigo da linguagem que o acompanha e que faz com que essa mãe se dirija ao seu bebê buscando dar-lhe uma resposta à pergunta que ela mesma formulou e que lhe permite endereçar a essa criança, juntamente com o aconchego do colo, o aconchego de um acolhimento que só o bebê humano recebe no leito do significante.
É pela entrada do significante que todos os objetos ofertados se tornarão objetos incapazes de uma satisfação total. A palavra introduz a impossibilidade de uma correspondência entre o objeto da necessidade e o objeto da pulsão, cujo destino será sempre da ordem de uma parcialidade no que diz respeito às satisfações. É a fala do Outro Materno que introduz esse alimento quando fala com a criança oferecendo, em contigüidade aos alimentos, uma história.
A voz e também o olhar da mãe instauram para o bebê um outro corpo, um corpo significantizado. É o Outro da linguagem que engendrará uma vida subjetiva, permitindo ao bebê humano o alcance de uma constituição psíquica. Nesse terreno familiar, que se produz entre a mãe e a criança, os significantes privilegiados pela mãe diante do choro de seu filho irão formar um campo discursivo que vai se compor em torno daquilo que a criança será. Assim se fala de uma criança: “ela e geniosa”; “ela é alegre”; “ele é tão quieto que parece que nem existe”; são ditos que vão fazer parte do tecido simbólico trançado pelas palavras da mãe, aquelas que vão dizer o que essa criança é. A esse estado de harmonização total entre o dito da mãe e a criança, o pai intervém interditando esse estado de coisas, dando à criança o instrumental que ela necessita para uma vida subjetiva que não seja conforme a todo o dito materno.
Afinal, Que alunos são esperados hoje pela escola? Com a inversão da pergunta podemos também questionar: Que professores são esperados hoje pelos alunos? A palavra professor, do latim, professor,óris, significa, o que faz profissão de, o que se dedica a, o que cultiva. O professor sempre guardou um lugar de autoridade, um lugar de lei a partir do qual a sua palavra, alimento para o jovem, apoiava-se numa ordem geracional na qual ele se incluía. Ou seja, como possuía um lugar na ordem das gerações – em se tratando de crianças e adolescentes, o professor, em geral, tem no mínimo a idade dos pais – o professor era investido pela autoridade que esta ordem representava. Dizia-se, e fazia parte da educação familiar a qualquer criança: “Respeite e obedeça aos mais velhos”. Logo, a questão que hoje, na pós-modernidade, parece se colocar diz respeito a uma Lei que, para além de qualquer escrito em algum código, se inscreve para o falante. Estar situado numa ordem de gerações faz com que o sujeito seja o sucessor de algum outro, que tenha recebido deste Outro a sua inclusão numa linhagem familiar pelo fio do discurso, ou seja, de um discurso que faz com que uma criança, antes mesmo de efetivar a sua vinda ao mundo, antes de seu nascimento, já seja um bebê idealizado no discurso de seus pais. Os pais sempre esperam algo de seus filhos, sempre idealizam como será essa criança que, ainda dentro do ventre materno, pode ser “carinhosa”, “rebelde”, “agitada”, “tranqüila”, etc... São os pais e familiares que assim falam dessa criança antes mesmo de seu nascimento.
A dificuldade que muitos pais enfrentam hoje diante de seus filhos, em suas falas: “ele não me respeita”; “não tenho autoridade com ele”; “não sei o que fazer, ele não me obedece”; deve ser considerada diante do fato de que todo um discurso politicamente correto veio nos dizer que pai e mãe devem ser, antes de tudo, “amigos” dos filhos. Ora, o próprio termo já torna esse anseio impossível, pai é uma coisa, mãe é outra, filho é outra e amigos ainda uma outra. O amigo pressupõe, no mínimo, uma igualdade na ordem das gerações. Que fique bem claro: ordem das gerações não significa idades diferentes, mas antes o lugar onde o sujeito vai encontrar a sua posição desejante frente ao lugar da Lei. Ou seja, é preciso que a Lei esteja em algum lugar, que a palavra circule, é preciso que alguém a encarne sob a forma da autoridade. Que o pai seja para o filho aquele que porta a Lei e que, portanto, não respeitá-la implique em transgredi-la. Transgride-se a Lei sozinho ou com um amigo. Os jovens, em geral, encontram maior possibilidade de transgressão quando estão em grupo, quando estão junto com os amigos. Logo, se pai ou mãe devem ser, como preconizado em nosso tempo, amigos dos filhos, quem lhes antecede na ordem das gerações, quem representa a Lei? Aquele mesmo com quem se vai transgredi-la?
Hoje vemos nossos professores confrontados com um quadro dificílimo quando encontram, diante de uma geração de pais impossibilitados de exercerem a sua autoridade, crianças e adolescentes que batem nos pais, gritam com eles, falam e fazem o que querem na presença destes mesmos pais que seriam os representantes de uma Lei. Fazem isso demandando que alguma interdição recaia sobre eles. Fica assim delegado à escola a função de “educar” esses jovens, como se coubesse a ela e aos educadores instaurar o vigor de uma Lei simbólica dentro de cada família. Lei que só pode ser transmitida de pai para filho, de geração a geração.
O que muito tem acontecido é que, diante do enfraquecimento de um lugar de autoridade ao qual se reportar, do enfraquecimento daquele que venha barrar um “tudo é possível”, “tudo pode”, nossos jovens, angustiados e sem condições de elaborar as suas experiências, passam ao ato. E cada vez mais se demanda que os jovens sejam “consertados”, como sugere o criativo nome de fantasia do Cloridrato de Metilfenidato, mais conhecido como Ritalina, e que ganhou em outro laboratório o rótulo Concerta. Droga que produz sobre o cérebro os efeitos comparáveis aos da cocaína e do ópio e que vem sendo prescrita indiscriminadamente nos Estados Unidos, país onde já rendeu inúmeros processos contra a sua utilização, sendo cada vez mais empregada no Brasil. Sua finalidade é “dar um jeito” nos jovens hiperativos, sem que se leve em conta as conseqüências que esse tipo de medicamento lhes traz. Sem que um tempo de elaboração lhes seja concedido.
Pais e professores, muitas vezes, tem seus problemas momentaneamente solucionados quando veem uma criança dita hiperativa “tranquilizada”, “mais atenta” e com um “melhor rendimento escolar”. O que eles não se dão conta é que, justamente, essa criança não está mais calma, não está menos dispersa ou com a atenção menos difusa, mas presa numa camisa de força química, está “tranquilizada” sob o efeito de uma droga. E o que acontece se essa droga for retirada? Fim da tranqüilidade de todos. E se ela for mantida indefinidamente? Aí teremos um jovem bastante “tranquilizado”, anestesiado, não sendo capaz sequer de sair de seu quarto para comer. Diagnostica-se, então, uma “depressão” e inicia-se uma terapêutica com antidepressivos. É hora de acrescentar fluoxetina à terapia medicamentosa. E lá se vai nosso jovem, de droga em droga impedido de desejar.
Em algum momento, ainda que submetendo-se a um risco maior, mesmo que de morte, talvez as drogas ilícitas ou a criminalidade restem para os nossos jovens como a única possibilidade de se drogarem sozinhos, como uma passagem ao ato daquilo que não puderam dizer, como uma busca de sensações que não puderam experienciar.
Afinal, dizer é um ato de desejo, mas como nosso jovem pode desejar se o desejo implica um movimento, um movimento desejante, e todos o querem imóvel, sem agitação, sem ação, o querem amortecido, ao ponto, muitas vezes, que do desejo amortecido tenha a morte sido a única garantia. A clínica psicanalítica nos ensina: o que não pode ser simbolizado retorna no real. Acaso não é isso que encontramos nos “acidentes” sofridos por nossos jovens em situações em que nitidamente os vemos colocarem-se em risco extremo? Ou ainda quando encontram o caminho da criminalidade, facilmente explicado quando convocamos a justificativa da pobreza, mas estupefaciente quando jovens de classe média-alta buscam esse mesmo caminho?